A POESIA DE MANUEL
ANTÓNIO PINA
NAS FRONTEIRAS DO DIZÍVEL E DO
INDIZÍVEL
ARNALDO
SARAIVA
Quando
já deixou o meio da casa dos sessenta, quando já entrou na idade ainda eufemisticamente dita
terceira - o que, esquecida a sua certidão de nascimento, notaremos bem menos
no rosto do que nas homenagens que vem recebendo ultimamente -, Manuel António
Pina, só a distraídos, que são culturalmente quase todos os portugueses, não
parecerá uma das mais fascinantes personalidades da nossa comunidade, um dos
mais estimulantes criadores nacionais.
Beirão
e sabugalense de origem, que aos três anos teve de partir, por causa da
profissão do pai, para outras terras beirãs (Castelo Branco, Sertã, Sernache…),
ou não beirãs (Santarém, Aveiro, Oliveira do Bairro…), até se fixar, ou infixar,
no Porto, aos 17 anos; jurista de formação (coimbrã), e jornalista de profissão (no
Porto); cidadão independente, exigente e clarividente; homem cordial e jovial, mau grado a
hipocondria; bom companheiro, devotado à família, aos amigos e aos bichos, especialmente aos gatos (mas
também aos “leões”, mau grado os perigos que isso implica, de acordo com as
suas próprias palavras: “o Sporting pode provocar ataques cardíacos e enfartes”) - Manuel António Pina tem sabido firmar-se
ou afirmar-se como escritor qualificado, e hoje muito premiado. Escritor,
dir-se-ia, a tempo inteiro, na sua bibliografia, só iniciada aos 30 anos, em
1974, contam-se cerca de 40 obras, autónomas, repartidas por várias
modalidades, estéticas ou estilísticas.
Com efeito, produziu obras ou guiões para
cinema, como Uma História de Letras, com realização de José Carvalho, e Se a Memória Existe, com a realização de
João Botelho (a partir de O Tesouro);
produziu obras ou guiões para a televisão, como Histórias com Pés e Cabeça, realização de Amílcar Lyra; produziu
obras para banda desenhada , como Uma Viagem Fantástica,
que tive o gosto de prefaciar; produziu
obras teatrais ou histórias adaptadas, às vezes por ele mesmo, ao teatro, várias
das quais encenadas pelo Pé de Vento, como A
Arca do Não É, História com Reis,
Rainhas, Bobos, Bombeiros e Galinhas, O
Inventão, Os Piratas e a recente narrativa dramática A História do Sábio Fechado na sua Biblioteca; produziu um livro de
entrevistas, seleccionadas, Dito em Voz Alta; produziu
traduções poéticas, em livro, de Pablo
Neruda, e, avulsamente, de poetas internacionais, antigos e modernos, desde
Frei Luis de León, a Laforgue, Elliot e Éluard. Mas a maior
parte da produção literária de Manuel António Pina reparte-se pelas áreas da
crónica, da ficção e da poesia, alguma desta integrada por editores e leitores,
mais do que pelo autor, na chamada literatura infantil, ou na literatura infanto-juvenil, escrita
em verso e em prosa.
Conviria,
a propósito, lembrar o que o autor não se tem cansado de repetir:”chamo-lhe infantil porque
tenho de lhe chamar alguma coisa…”; “eu não sei o que seja um
livro para crianças. Os livros não são para. Os livros
são, pura e simplesmente”.
Assim,
não admira que tenha dado a uma das suas obras o título A História do Capuchinho Vermelho Contada a Crianças e nem por isso,
história que reescreve o famoso conto popular em que o lobo é também o
engenheiro Lobo, que come a avó e comerá a neta, mas que é morto pela mãe, que
faz da sua pele uma bela estola.
Muito
cedo marcado pela leitura de Lewis Carroll, que não por acaso comparece na
primeira epígrafe do seu primeiro livro, Manuel António Pina explora, como o
autor de Alice Através do Espelho (ou: Do
Outro Lado do Espelho), os jogos verbais e as figurações do avesso e do inverso, o que se viu
logo em títulos iniciais como O País das
Pessoas de Pernas para o Ar e Gigões &
Anantes, onde dizia que “Gigões são
anantes muito grandes. / Anantes são gigões muito pequenos”, e
onde referia que o ió-ió de Ana ia para
baixo quando ela dizia “para cima” e ia para cima quando ela dizia “para baixo”.
Tais
inversões podem passar por simples brincadeiras ou por graças inocentes de
sabor infantil, dirigidas a inocentes crianças. Mas na
realidade implicam jogos verbais lógicos e ilógicos de vária espécie e
carregam quase sempre uma sofisticação intelectual que põe em causa o
mundo das nomeações ou das representações canónicas, que desmoraliza,
desconstrói ou critica o mundo das convenções, e que pode perturbar com o nonsense e desembocar no riso:
Multiplica, multiplica
que é o que
faz a gente rica !
Peixes
por pães é que não:
é muita multicomplicação !
A divisão é a arte
de ficar
com a melhor parte.
Se
duvidas não dividas !
Ou divide só as dívidas !
Sou um cabeça no ar.
Nunca penso no que estou a fazer
nem faço o que estou
a pensar.
Fazer
o que penso? Tinha mais que fazer…
Pensar
o que faço? Nem pensar...
Para
Manuel A. Pina, na literatura infantil e na literatura, sem mais, a relação com
as palavras é exactamente a mesma e só a forma de expressão é diferente, sendo
a da literatura mais “emperrada” e a da literatura infantil mais
“irresponsável”, descontraída ou descomprometida.
A
problemática qualificação de literatura como infantil só se justificaria como
especificidade, não etária ou destinatária, mas estética ou estilística,
marcada pela maior simplificação da língua, do léxico, da morfossintaxe, mas
também por um típico imaginário, pela fuga à elaboração conceptual e pela
exploração singela do lúdico e do jocoso.
No
Pequeno Livro de Desmatemática,
de que citei alguns versos, Manuel A. Pina diz que “brincar é uma coisa muito
séria” e trata “como gente”, com “sentimentos, sonhos e até fraquezas”, os “números,
os sinais, as contas”.
Publicados
no mesmo ano em que publicou Poesia Reunida,
os poemas do Pequeno Livro de Desmatemática não foram incluídos
neste volume, mas, tal como os de O Pássaro na Cabeça, não podem ser
desvalorizados como poemas só porque são, supostamente, destinados a crianças,
ou só porque estão escritos numa linguagem mais concreta e directa do que a da
outra poesia do autor, se é que há outra poesia
do autor.Camões é grande poeta nOs
Lusíadas e nas canções, mas não é
pequeno poeta nos vilancetes e nas cantigas.
Do cronista
Manuel A. Pina estão publicados dois livros:
O Anacronista e Porto, Modo de Dizer; mas dispersas por jornais, a começar
pelo seu Jornal de Notícias, e por
revistas, há decerto crónicas para vários livros*. E ele é dos poucos cronistas em actividade cujas crónicas
sobrevivem, como regra, ao dia da publicação, e merecem recolha em volume. Elas
têm o que uma boa crónica deve ter, uma relação próxima com o tempo que passa,
uma percepção e uma crítica aguda dos movimentos sociais, das mudanças, dos
costumes, das mentalidades e das sensibilidades, uma enunciação leve e
coloquial, capaz de criar empatias, cumplicidades ou intimidades com o leitor,
mesmo com discordâncias.
No
formato canônico da crónica do século XX, que já não era o do tempo do Eça, ou
no formato abreviado e minimalista que ultimamente se usa e que se aproxima do
modelo da nota ou do instantâneo, a crónica de Manuel António Pina, incidindo sobre Portugal ou sobre
o Porto, sobre o mundo, sobre a vida política, cultural ou social, sobre
personagens poderosos, políticos ou empreendedores, sabidos ou lorpas, sobre
personalidades humildes ou desamparadas, dificilmente se confundirá com a de um
simples jornalista, porque tem a marca
pessoal de um escritor e de um homem descomprometido, salvo com a vida e a
dignidade humana, às vezes de um céptico, às vezes de um gozador implacável, às
vezes de um mal disfarçado romântico moderno, sensível às “ruínas, margens,
passagens do quotidiano” que o levam ao humor desenganado e à melancolia.
Veja-se,
a propósito, o que diz em O Anacronista
da espécie textual crónica, que até antropomorfiza, e que concebe como
metáfora ou símbolo dele e do homem: “as crónicas de jornal, filhas de Cronos, o
tempo que passa, como todos nós, homens que passamos, são pobres seres
insubstanciais e irrisórios, provavelmente sem sentido, provavelmente inúteis”.
Na
bibliografia de Manuel António Pina encontramos também ficções, geralmente breves, como os melhores
contos populares, que, pela qualidade,
justificam a atenção crítica que nunca tiveram, como durante décadas também não
teve a sua poesia.
Notemos
desde logo o gosto de Manuel A. Pina pela palavra “história” (mas podia ser “estória”),
evidenciado até em títulos: História com
Reis, Rainhas, Bobos, Bombeiros e
Galinhas, Histórias que me Contaste
Tu, A História do Capuchinho Vermelho Contada
a Crianças e nem por isso, A História do Sábio Fechado na sua
Biblioteca, O Têpluquê e outras Histórias.
Histórias que me Contaste Tu inicia-se
com “As histórias do escaravelho contador de histórias”, que conta a história
do contador de histórias que acaba a contar “a história que o escaravelho me
contou que lhe contei”. Aqui, como noutros lugares ou noutras ficções, fica evidenciado
o gosto de Manuel
A. Pina não só pela história propriamente dita mas também pela relação que a
história estabelece com outra história ou com outras histórias, pelos cruzamentos que ela favorece do autor, do leitor (ou do ouvinte) e
da História. As histórias variam, os contadores mudam. E Manuel A. Pina gosta
de subverter ou de reescrever histórias até da tradição internacional como a do
Capuchino Vermelho, ou
a do Menino Jesus; “O cavalinho de pau do menino Jesus” remete para a história
bíblica, mas o menino Jesus desinteressa-se pelos Reis Magos, ou pelo ouro,
incenso e mirra que eles lhe trazem e interessa-se pelo cavalo de pau, chamado Galope,
que lhe deu o Pai Natal.
No
gosto de Manuel A. Pina pelas histórias vê-se também o seu gosto pela problematização
e pela relativização – do narrador, da
narração e do narrado, da verdade e da ficção, do passado e do presente, do
real e da linguagem, da .vida e do sonho, da
experiência e da memória. O conto “O
escuro” de 1997, incluído depois no livro de poemas Nenhuma Palavra, Nenhuma Lembrança, de 1999, começa assim: “Eu sou
nós os dois.Ou melhor, nós os dois somos nós os dois, eu sou o terceiro.”; a novela Os Papéis de K., de 2003, tem um
narrador que começa por dizer: “Aquilo de que me lembro (num presente que me
parece também já passado) está cheio não só de estranhezas e improbabilidades,
mas igualmente de vazios, de hesitações e de imprecisões, pois se calhar não me
recordo de factos, mas da minha recordação deles.” E o último capítulo desta novela, não por acaso
platonicamente intitulado “Sombra”, onde há jogos de verdadeiros e falsos
autores e manuscritos, começa assim: “Às vezes julgo que inventei, de facto,
Agnes. Ou que me inventou Agnes a mim, do mesmo modo que o escritor inventa o
leitor, ficcionando-o. Assim, porque também o leitor ficciona aquilo que lê e
ficciona o próprio escritor, seríamos ambos, Agnes e eu, ficção. E a história
que ela me contou, a ficção de uma ficção.”
Paira
evidentemente nesta
narrativa, como noutras obras de Manuel António Pina, o modelo ou o saber de algumas Ficciones
de Jorge Luís Borges, mas ela é, podemos dizer, a amplificação prosaica de um verso famoso de Ricardo Reis - no final de um poema em que, não por acaso, fala de “cadáveres
adiados que procriam”:”Somos contos contando contos, nada”.
Mas
de todas as
faces literárias de Manuel A. Pina é sem
dúvida a do poeta que mais e melhor o define e projecta, por várias razões, até
quantitativas. A sua Poesia Reunida, de
2001, contém em cerca de 300 páginas poemas de nove livros, a que deveríamos
somar hoje os poemas originais de Os Livros,
de 2003, os dois poemas inéditos de Mesa
de Natal, de 2006, e os inéditos de Os
Gatos, de 2008*.
O
próprio autor confirmou, em entrevista a Carlos Vaz Marques, a relevância que
tem nele a sua criação poética: “A poesia, naquilo que me toca, é um
instrumento permanente de relação comigo mesmo, de relação com o mundo. Não
ligo a ignição da poesia em certos momentos:agora vou fazer um poema. Não
escrevo às segundas, quartas e sextas e faço jornalismo às terças, quintas e
sábados. O que acontece é que a poesia está sempre presente. Não propriamente o
acto de fazer um poema, mas a relação que lhe está na base. Essa relação com as
palavras, no fundo, está sempre presente”.
Seria
impossível esboçar aqui, e agora, uma teoria geral da poesia de Manuel A. Pina.
Limitar-me-ei a alguns tópicos, como quem se move à volta de um objecto difícil
ou complexo; às vezes os movimentos à volta de, ao lado de, são, em crítica, os
mais fecundos. Não posso esquecer o que li, muito jovem, em Dámaso Alonso, que,
extraordinário crítico de poesia, achava que só podia falar dela
movendo-se “torpemente pelas margens”.
Movamo-nos então pelas
margens da poesia do autor de Cuidados Intensivos,
ou fixemo-nos nalguns pontos estratégicos,
que permitam eventualmente o seu bom entendimento; como sugeria Gregório de Matos, o todo pode estar
na parte.
1. Enquadramento
Manuel
A. Pina surgiu publicamente como poeta no ano do mais famoso 25 de Abril da
nossa história. E é curioso que a estreia poética dele se associe a esse momento. A sua poesia
transporta também, no seu campo específico, um desejo de libertação ou de
liberdade, desde logo dos cânones para que o empurrariam as práticas poéticas dominantes ao tempo
da sua adolescência ou nos anos 60.
Nesses
anos eram bem notórias, entre os jovens poetas, três correntes: uma corrente
mais ou menos conservadora, mesmo que se quisesse ideologicamente
revolucionária, mais ou menos relacionável com o neo-realismo, o da revista
coimbrã Poemas Livres; uma corrente
vanguardista, a da Poesia Experimental,
relacionável com a poesia concreta brasileira ou com a poesia visual
internacional; e uma corrente neo- modernista, a da Poesia 61, relacionável com algum surrealismo ou com alguns poetas
dos Cadernos de Poesia e
da Árvore.
Manuel
A. Pina não se filiou em nenhuma dessas correntes, nem a sua passagem por
Coimbra, nos anos 60, o aproximou dos poetas de Poemas Livres. Pelo contrário, se a alguma corrente foi beber, terá
sido à surrealista que se afirmara na década de 40. Porque de resto, como um
heterodoxo (e suponho que ele também já tinha lido Eduardo Lourenço, que eu ouvi e li pela
primeira vez nessa altura), preferiria escolher os seus mestres em diferentes
escolas, ou fora de escolas.Entre eles contavam-se, além de Alexandre O`Neill e
de Mário Cesariny de Vasconcelos,
Pessoa, que leu graças a um prémio literário em Aveiro (o prémio eram as obras
de Pessoa), Ruy Belo, revelado
justamente em 1961, e alguns poetas internacionais que começavam a ser muito
conhecidos em Portugal, como o brasileiro João Cabral de Melo Neto, o argentino
Jorge Luís Borges, e o anglo-americano T. S. Eliot.
2. Citações, colagens, intertextualidades
Versos
ou sugestões desses e de outros poetas são conscientemente “roubados” ou “plagiados” por Manuel A.
Pina, à semelhança do que fizeram Pound e Eliot, nisso imitados pela generalidade dos poetas
modernos. No seu livro de estreia, ele próprio, que definiu a literatura como “uma
arte escura de ladrões que roubam a ladrões”, anotou
as dívidas que contraiu com Lewis Carroll, Apollinaire, Mallarmé, Pessoa,
Cesariny, Raul de Carvalho, Elliot, M.M.de Andrade, O`Neill, Fernando Lemos, Pound,
os Beatles, Antero de Quental e até Rosselini, e até Jean-Baptiste Vico, etc.
No
final do segundo livro Aquele que Quer Morrer,
de 1978, vêm nomeadas as contribuições de Shakespeare, dos Upanishads, de Bacon, Borges, Eliot,
Nietzsche, Bataille, Camões, Lao
Tse, e até de Hugo Pratt e de Mao.
Em
vários livros, o autor já prescindiu de notas de referência a autores citados, que
nalguns casos podem até ser
citados no interior de um poema - como Beckett em Os Livros , cuja nota final cala o seu
nome mas não o do Talmude, do Beowulf, de Villon, Tchoung Tseu, Baudelaire, Píndaro, Keats, Coleridge,
Joyce, Ovídio, Dante Gabriel Rossetti, William Morris e Walt Whitman – ou até
em título, como em “D´Après D.Francisco de Quevedo” de Cuidados In- tensivos,
cuja primeira parte, “Metamorfoses”, termina com a nota que arrola estes autores
utilizados: Hölderlin, Rilke, Breton, Camões, Álvaro de Campos, Laforgue,
Baudelaire, Blok, Quevedo, Yeats, Bob Dylan, e os evangelistas João, Lucas e
Mateus.
Se
nos últimos livros passou a rarear a citação, isso pode indicar um encontro
maior com a sua própria voz, mas a verdade é que uma constante da sua poesia é a referência
à impossibilidade da própria voz, oureferência à voz do outro
que passa necessariamente na própria.
3. Livros,literatura
A
prática da intertextualidade parece aliar-se em Manuel A.Pina não só a uma teoria da saturação
livresca e literária mas também a uma teoria do mundo ou da vida como livro,
literatura, representação ou leitura. Essa
teoria apoia-se em
termos recorrentes, também de gosto borgeano, como livro, biblioteca, leitura, literatura,
poesia, palavra. Lembremos que um livro de Manuel A. Pina se intitula
exatamente Os Livros, cujo primeiro
poema, intitulado “O Livro”, termina com este verso oximórico: “O que o livro
diz é não dito”. (Releve-se a preferência do oral - “dito”- ao “escrito”.)
Afirmava Wittgenstein
que não existe o que não pode ser dito;
sem o contestar, Manuel A. Pina chama a atenção para o
silêncio que se dá com o dizer, ou para o que nunca se diz quando se diz, ou
para a vontade e necessidade de dizer para lá do que se diz.Nisso coincide com
o ensaísta, muito em moda, George Steiner,
para quem a linguagem ajuda sempre a clarificar a linguagem, as palavras falam
sempre de palavras ou são faladas por palavras, e para quem a arte da leitura é
uma arte de entrar na nossa mais funda intimidade:”O que é feito de nós senão /
as palavras que nos fazem ?”
O desgaste das “palavras que nos
fazem”, num tempo tão palavroso como o nosso (e nunca foram tantos os poetas
verborraicos, como os romancistas, os políticos e os comunicadores sociais), justifica a atenção às palavras dos melhores poetas, às
melhores palavras; mas justifica igualmente um maior esforço pela expressão
original, referida numa arte
poética de Os Livros:
Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultadamente fala
sobre tanta literatura.
Além
do que transportam
de substância ideológica ou poética, as citações de Manuel A.Pina dão conta da
extensão dos seus interesses culturais, e da solidez da sua cultura filosófica
e poética. Mas indiciam também uma boa preparação teórica ou crítica, que ele revela
em entrevistas e em considerações hetero ou auto-reflexivas, mesmo quando se
retrai ou se defende, seja na relativização de um “talvez” ou de um “provavelmente”,
seja na humildade que não passa do que a retórica chama cleuasma, isto é, uma auto-depreciação
que se sabe que o leitor ou o interlocutor não confirmará. Ele diz, por exemplo:
“Eu não penso muito a minha poesia, ela é tudo o que penso sobre ela”: alguém acreditará ?
4. A forma quadra
A
quadra é, de
longe, a estrofe predominante na poesia de Manuel A. Pina, como na poesia
portuguesa; ela atravessa todos os seus livros, ainda que raras vezes ele a
submeta à rigidez da rima ou da métrica. A quadra parece quadrar bem a quem sabe
cuidar da arquitectura dos poemas, geralmente constituídos por versos breves e
por estrofes breves.Só a partir de 1994, do livro Cuidados Intensivos,n a poesia de Pina passou a abrir-se mais a
alguma variação formal, nomeadamente em estrofes-blocos, em tercetos e em
versos amplos.
O
gosto da quadra poderia tê-lo ganho no convívio com as culturas populares de
terras beirãs, e outras; recorde-se o que disse António José Saraiva:”talvez
todos os poetas de Portugal, se iniciaram na poesia
pelas quadras populares”. Mas também o pode ter
aprimorado na leitura de João Cabral de Melo Neto, outro
obsessivo da quadra, de que, aliás, fez o implícito elogio num poema magistral
de Museu de Tudo:
O número quatro feito coisa
ou
a coisa pelo quatro quadrada,
seja
espaço, quadrúpede, mesa,
está racional em suas patas,
está plantada, à margem e acima
de tudo o que tentar
abalá-la.
Em
João Cabral havia, como há em Manuel A. Pina, o gosto da concisão e da formulação
aforística, mas há sobretudo o gosto do racional e do conceptual, o gosto de
desdobramentos lógicos, e o gosto de oposições fecundas. Eles
também intuíram o que Fernando Pessoa expressou quando escreveu que a quadra trabalhava com”inconexos” e podia
exigir grande esforço intelectual e condensar muitos raciocínios.Mas o
pendor racional e desconstrutor de Manuel A.Pina também parece
devedor de alguma filosofia e de alguma poesia oriental, sobretudo de
Lao Tse e dos seus luminosos paradoxos, antíteses e oximoros.
5. O signo do não
O
primeiro livro de Manuel A. Pina projecta logo em título duas negativas: Ainda não é o Fim nem o Princípio /…/; e o primeiro poema desse
livro intitula-se “O tempo não”, como o terceiro se intitula “Palavras não”. A relevância em
título e em posição sintáctica terminal do “não”– mesmo que versos desses poemas o devolvam à função adverbial:
“Os tempos não vão bons para nós, os mortos”;”palavras não me faltam”…”faltas-me
tu poesia”) – parece querer marcar com clareza, desde o início, uma poética da
negatividade, onde comparecem reiteradamente outras formas negativas como nada, sem, ninguém, nenhum (lembrem-se
os títulos de livros Nenhum Sítio e Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança), onde
há poemas que incidem sobre “o que não existe” e até comparece o nome próprio
“Não É”.
Tomando o partido da negatividade, Manuel
A.Pina cumpria a tarefa de um verdadeiro moderno, como o definiu Maurice
Blanchot (”le négatif est notre tâche”), traduzia pela linguagem o desejo de rupturas radicais,
recusava o mundo como é ou está, empenhava-se na tarefa, referida por Steiner, de “desdizer o mundo, imaginá-lo e falá-lo de
outro modo, mais autêntico ou mais harmónico”.
Manuel
A. Pina também
aprecia e consome o prefixo negativo –des, que encontramos no título do Pequeno Livro de Desmatemática; mas no
poema “A ferida”,
de Os Livros, com o começo fulgurante
“Real, real, porque me abandonaste ?”, ele não é menos expressivo do que
Steiner:
Oh, juntar os
pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo,
descriá-lo
6. Figuras
A
negação pressupõe a existência de opostos, contrários ou
contraditórios, em que um pode evidenciar o outro e em que um pode relativizar o outro. Manuel António Pina leva-nos constantemente a pensar
em - e a transitar entre
- dualidades: eu / outro, dentro / fora, tudo / nada, voz / silêncio,
falar / calar, vivo /morto, real / sonho, liberdade / destino,
matéria / forma, e até poesia / prosa. Lembre-se o poema
“Saudade da prosa”, que começa assim:
Poesia, saudade da prosa,
escrevia “tu”, escrevia ”rosa”
mas nada me pertencia
O
trânsito entre oposições, e até entre oposições de oposições, implica um
invulgar consumo de antíteses e oximoros; antíteses como em “Entro vivo para
fora de alguma coisa morta” (dentro / fora, vivo / morto), oximoros como:”O que
se move está parado”,”O dentro disto está fora ”, “As filhas sabem-no não o sabendo”, “Aquele
que quer morrer / é aquele que quer conservar a vida”.
.
O poeta tanto pode con-fundir os opostos, como pode dá-los como irredutíveis,
ou relativizáveis, a ponto de se mostrar incapaz da nomeação, ou de não passar
da nomeação vaga e genérica: “algo”, “isto”.”coisa”. Mas
nessas operações o que vem ao de cima é sobretudo a consciência ou evidência da força e da
fraqueza da linguagem, ou então o tremendo – inseguro e espantoso -
subjectivismo de um enunciador condenado (por quê ? por quem ?), como um
personagem de Beckett, a falar e a, falando, calar, de um sujeito problemático e problematizante, que duvida do
real e do poder da linguagem, mas que, por causa das dúvidas, também se vê
condenado a explorar as fronteiras do dizível e do indizível (ou do indecidível),
o que até pode exigir uma gramática, uma sintaxe sui generis: “sem falarem nem não falarem”, “quando eu bater à
porta não me reconheceremos”,”o que é que eu fui sido a ouvir?”, ”o fora de
elas é dentro / de que exterior centro ?”.
O
discurso negativo de Manuel A. Pina cruza-se naturalmente com o seu discurso
interrogativo, que chega a identificá-lo com Cristo, abandonado pelo Pai:”Real,
real, porque me
abandonaste ?” Abandonado pelo real, ou confrontado com a pavorosa ilusão do
real, e com palavras mas também sem palavras, o poeta, mesmo “inventão”, torna-se
errante, nos dois sentidos da palavra, e só pode aspirar a encontrar “o caminho
da casa”, de que fala em Cuidados
Intensivos, e ao “regresso a casa”.
7. O regresso a casa
O
tema ou o motivo da
viagem é também recorrente em Manuel A.Pina, que até tem um livro intitulado Uma Viagem Fantástica . Vários dos seus poemas falam de quem saiu, ou teve de sair, ou
teve até de fugir do seu sítio, palavra bem do gosto do autor de Um Sítio onde Pousar
a Cabeça e de Nenhum Sítio.
A saída do sítio
próprio, voluntária ou imposta, instabiliza ou desestabiliza, implica uma aventura
ou uma série de aventuras, exige a
passagem por espaços não familiares, estranhos e perigosos, ainda quando
fascinantes, e em princípio (ou em fim) leva a um maior conhecimento do mundo.É
bem sabido que na literatura como na linguagem comum a metáfora da viagem
traduz com frequência a busca do sentido,
ou a biografia individual – desde a saída do útero, a casa primordial, ou desde
a eufórica residência materna, ou
paterna (ou matrimonial), ou desde a terra natal até às experiências da velhice.Em Manuel
A.Pina essa viagem é deceptiva e traumática, pelo que, como Ulisses, como a sua
Ana (“A Ana quer/ nunca ter saído crescer
/da barriga da mãe”…”ser pequena e crescer
/ e de vez em quando nascer / e voltar a desnascer”),o
poeta sonha com o retorno ao lugar
inicial. Só que a viagem de retorno é uma não-viagem (“chega finalmente aonde
sempre esteve”) ou também
se revela deceptiva:
Volto, pois, a casa.Mas a casa,
a
existência, não são coisas que li ?
E o que encontrarei
se não o que deixo: palavras ?
A casa primordial é também a casa da
palavra, que Heidegger identificava com a casa do ser, a casa da poesia ou do
poema, que Celan definiu exactamente como o “regresso a casa”; e é afinal a terra de
onde todos viemos e para onde todos voltaremos, já não lugar eufórico mas “apavorado
lugar” de silêncio, porque nem se sabe o que é esse silêncio:
as minhas palavras puderam estar
onde sempre estiveram:
no apavorado lugar
onde sou silêncio.
Manuel
A. Pina disse uma vez que não se sentiria bem se não lesse ou escrevesse, e que
ler (ou escrever) “
é uma forma (convenhamos que um pouco absurda e imatura) de felicidade”.
Noutro
tempo e noutro registo, também disse que a poesia, ou a literatura, ou o
criador literário é a sombra de uma sombra. Será? Talvez! Mas para usar um
oximoro a seu gosto, eu diria que, no caso de Manel António Pina, estamos
perante uma sombra que nos ilumina - e que nos assombra.