<

Testemunhos

UM HOMEM BOM

Quem lê os poemas de Manuel António Pina vê-se afogado em beleza e verdade. Quando digo beleza, quero dizer uma beleza íntima, quando digo verdade, quero dizer uma verdade que desabrocha cá dentro – quando digo afogar, quero dizer um afogar como numa água que saísse de nós e nos transbordasse.

Mas não é disso que quero falar agora. Quero falar do Manuel António como por assim dizer pessoa, como a pessoa que foi, era e é para mim, que só dessa posso dar cabal testemunho. E a coisa principal que me vem à ideia é: bondade, generosidade. A bondade e a generosidade que transparecem daqueles olhos travessos e daquele sorriso tímido como dum gato (da Alice).

Conheço-o desde o umbral da minha idade adulta e sempre esteve disponível para mim, como um irmão mais velho, sem conselhos, nem ordens, nem recriminações, nem zangas – como uma simples presença em que se podia confiar (como quando me foi comprar algumas coisinhas à pastelaria para me aconchegar a barriga, que a vida nem sempre me foi fácil).

Através dele conheci outros horizontes (lembro¬ me, por exemplo, da poesia beat, de Ezra Pound, de Eliott, do Lewis Caroll, não por se tratar de literatura, mas porque correspondeu a abrir¬¬ me os olhos para novas realidades, que ele era homem de se interessar por tudo). Nunca me disse: «Vai por aqui.» Simplesmente, levava¬ me consigo nas suas viagens, partilhava a sua vida e era bom viajar com ele.

Assim mesmo era no trabalho, no Jornal de Notícias, onde fui recebido como jovem aprendiz por ele, já tarimbado jornalista. E a nossa amizade nunca esteve em causa, mesmo que por acaso discordássemos disto ou daquilo. Nunca se me impôs como chefe ou veterano, sempre foi o companheiro de ofício atento e atencioso.

Durante muito tempo, pouco falámos, porque os acasos da vida levaram-me para longe e os telefones eram caros (não éramos pessoas de nos cartearmos, o nosso contacto sempre foi de viva voz). Mas, com a ajuda das novas tecnologias e da Internet, a certa altura, tivemos oportunidade de reatar as longas conversas – e como eram longas as conversas com ele (não havia tempo, nem horários).

Falava de tudo: do Steve Hawkins e do merceeiro, do filho da empregada, do ministro da Cultura, do Ruy Belo, do Cesariny, das filhas, sei lá, das pequenas coisas da vida, contava anedotas, sempre jovial. Era como se estivesse ali ao meu lado. Um irmão mais velho.

Mas o principal veio depois, quando voltei a Portugal, com a minha doença. Tendo sabido que sofro de uma insuficiência crónica (por sinal, o mesmo mal que ele) e que não estava abrangido pelo SNS, não descansou enquanto não me arranjou médicos. Conspirou com outros amigos, marcou¬ me consultas, ameaçou¬ vir¬ me raptar a casa com o Rui Manuel Amaral e arrastou¬ me para o Porto. Emprestou¬ me a casa dele e andou a fazer de meu motorista: levou¬ me aos hospitais, em Gaia, no Porto, sei lá onde, e, nos intervalos, ia conversando, conversando, contando anedotas, relatando sucessos extraordinários, sempre a falar, a falar. Homem de palavra (s), como dizia o outro.

Por isso, como querem que o esqueça? Tenho a foto dele como fundo do ecrã no telemóvel e nele repouso todos os dias o olhar.

Outubro 2013
Manuel Resende


Arnaldo
Saraiva

Eduardo
Lourenço

Da Rocha

Germano
Silva

Guilherme
Castro

Manuel
Pina (Pai)

Manuel
Resende

João
Pina (Irmão)

José
Carlos
Vasconcelos

Regina
Guimarães

Rosa
Maria
Martelo

Agostinho
Santos