Um Homem Sem Ódios
Se estivesse entre nós, o Pina fazia hoje anos-como, aliás, o leitor facilmente adivinha por esta homenagem que lhe é prestada nas páginas solidárias do JN.
Era costume os seus amigos reunirem-se com ele, no café Convívio, na véspera do aniversário para, ao bater da meia-noite, lhe cantar os “parabéns a você”.
Neste ano não houve essa confraternização porque o Pina não ia aparecer.
Ficámos todos muito tristes. Sabíamos do motivo, irremediavelmente forte, que impedia o Pina de aparecer. Mas custou-nos aceitá-lo. Não se rouba assim uma pessoa à vida.
O Manuel António Pina não era uma pessoa qualquer.
Perguntem às crianças que leram os seus contos juvenis. Interroguem os professores. Ouçam as pessoas que participaram nas comunidades de leitores. Falem com a gente do teatro. E não se esqueçam de ouvir os jornalistas a quem ele ensinou todos os segredos da profissão.
É que o Pina, além de tudo o mais, tinha o condão, isto é: tinha o gosto e o talento para ensinar, mas fazia-o discretamente, como quem pede desculpa.
Ele era assim, nunca se punha “em bicos de pés” e não precisava de o fazer porque, como homem de talento que realmente era, estava acima daquelas insuficiências que caracterizam a vulgaridade humana.
Era, e foi sempre, uma referência de integridade moral e de princípios éticos. Vivia para a escrita e para a família. Ninguém lhe conhecia defeitos, nem ódios nem beligerâncias.
Não há outra pessoa como o Pina, sereno, discreto, sorridente, eficiente à escrita, que comentava a sorrir as coisas más da vida.
Se vocês tivessem conhecido o Pina, como nós o conhecemos, ficariam a saber como é importante ter amigos.
|