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Testemunhos

para o Manuel António Pina

é certo que por vezes conversando
lutavas contra luas e olhos baços
semi-cerravas dextras as palavras tuas
como se nos morresses aos poucos
de temor e de ternura
inexplicadas

porém
acostumados ao vaivém do luto
que os teus poemas acendiam
nas duas extremas
do corredor

e em todas as portas do labirinto

ficamos sem saber quem se cansou
da fadiga que te trazia
violentamente inalterado
à nossa presença

pudera eu escrever
com a tinta do frio nas costas
e directamente sobre o tampo polido
de uma mesa do café onde esperar
esse tempo amigo que tu eras
passado a limpo

mas haja noite
haja mais noite
e nós crianças
em perda de sono
envelhecendo cada um na sua voz



Não posso apresentar-me como «tradutora de Manuel António Pina», pois, tanto quanto reza a história que me contam – história não totalmente coincidente com as minhas recordações – apenas por duas vezes verti para francês, com a colaboração do meu companheiro Saguenail, textos do autor. Do amigo. Ora, embora eu pratique, de há quarenta anos a esta parte, o ofício de tradutora – à sombra de muito diversos protocolos e sobretudo na área da tradução dramática –, nunca estabeleci com Manuel António Pina uma relação rotulável de profissional (o que quer que isso queira dizer...) entre tradutor e autor. Por outro lado, apesar de saber que a obra de Manuel António Pina foi sendo traduzida para inúmeras línguas – francês, alemão, inglês, castelhano, russo, neerlandês, búlgaro, dinamarquês, croata, catalão, galego e até corso – duvido que alguém possa, com legitimidade, considerar-se «tradutor deste preciso autor» para tal ou tal idioma, porque a envergadura da obra de que falamos fará com que proliferem tão-só tentativas de tradução e com que um ininterrupto fascínio as venha indefinidamente a multiplicar e colocar em diálogo. Coisa que é bela e desejável.
Se aceito alinhavar umas tantas considerações acerca das relações entre Manuel António Pina e a tradução – que não propriamente as traduções – é porque conversei algumas memoráveis vezes com ele sobre este assunto. E porque isso me oferece a oportunidade de abrir a gaveta das lembranças gratas, nas profundezas da qual o rasto de um encontro determinante continua, obscuramente a mudar-me em mim.
Acresce que Manuel António Pina tinha, da tradução, uma concepção alargada, próxima da que George Steiner teorizou. Ou seja, preto no branco: a tradução é a operação fundamental da linguagem verbal. Pelo que escrever é traduzir.

Permito-me abrir aqui um parêntese que justifica o recurso à figura tutelar do famoso pensador judeu e poliglota. As últimas conversas-encontro que tivemos, o Saguenail e eu, com Manuel António Pina, giraram à volta de um programa de televisão intitulado BEAUTY AND CONSOLATION (creio que de origem holandesa) que ele muito prezava, recomendava e difundia, e onde, muito particularmente Steiner entre outros sábios, se exprimia sobre as possibilidades de redenção que se oferecem ao homem enquanto criador. Desenfreadamente trocámos impressões, textos e dvdês com um entusiasmo digno dos coleccionadores de cromos nos bancos da escola.

Mas essas outras conversas a que aludia aconteceram há muitos anos atrás. Porventura nos idos de 80. Nas noites em que, fechado o Orfeuzinho, percorríamos muito lentamente, a bordo do Dyane vermelho, a Avenida da Boavista. Rolávamos àquelas desoras que eram as horas do poeta, experimentando a sensação de «ser sido», uma aventura metalinguística e metafísica inventada pelo condutor. A propósito de tudo, de nada, e do mundo, falámos da relação entre os actos de escrever e traduzir. Falámos disso a partir de um projecto singular que Manuel António Pina acalentava. Tratava-se da criação de uma espécie de heterónimo, cuja densidade, enquanto personagem, diferia bastante do modelo pessoano, porque a sua principal característica era ser escritor e estrangeiro. Biografia tinha? Não que me recorde. É consabido que Manuel António Pina foi íntimo e arguto leitor de Pessoa, mas aqui estava em causa uma operação assaz diferente daquilo que motiva um Chevalier de Pas ou um Alexander Search. Stephen Synchronous – hesito um pouco na grafia – era o nome dado por Pina a essa figura/motor de escrita e a sua ideia era atribuir-lhe textos redigidos na estranha língua dos tradutores, eventual mas não forçosamente dos maus tradutores. Tudo se passava como se, do tal Stephen Synchronous, só pudéssemos ter acesso à obra traduzida em português, sendo essa obra caracterizada por uma sintaxe inábil e laboriosa, enferrujada por pesadas paráfrases e recorrências de toda a sorte, enferma de bizarras literalidades. O texto na língua de chegada (e, repito, NÃO existia texto escrito na putativa língua materna de Synchronous) padecia de uma tal incapacidade de soar a português corrente que se revelava, por paradoxo, capaz de produzir, in extremis, o efeito de estranhamento e de assumida impotência que é próprio da poesia. Além disso, por detrás dos poemas de Synchronous, devia ler-se ou adivinhar-se – subterraneamente, em palimpsesto – o tal texto de partida, escrito nessa língua estrangeira e contudo familiar que é o inglês. O qual texto em inglês, de facto, mais não era do que um conjunto vazio. Ignoro, porque os meus (os nossos) encontros com Manuel Antonio Pina sempre foram erráticos, amiúde espaçados por anos, se ele levou este projecto até às últimas consequências, mas julgo que ele contém, no seu âmago e em síntese, alguns dados fundamentais para compreender a sua concepção da escrita e da tradução. Na tensão entre a obsessiva colagem ao literal e a descolagem relativamente a uma territorialização do sujeito poético, entrevemos uma das mais poderosas ferramentas da poética de Manuel António Pina que, ousando a infracção, nunca se cansou de combater, no terreno, as elegâncias ocas e as doenças do estilo. Se por um lado, Manuel António Pina apreciava a destreza dos grandes fazedores de versos – ouvi-o louvar o talento dos poetas capazes de produzir uma sextina bela e escorreita –, por outro, também o ouvi gabar a musicalidade dos versos de pé quebrado. Eis a arriscada beleza do erro errado que pode ser o nome oculto do que é novo.

Tenho comigo a grande mágoa de não ter sido capaz de partilhar mais frequentemente com Manuel António Pina os poemas esfarrapados que quotidianamente vou cometendo. Frente ao amigo, eu via sempre o gigante e, não tendo a agilidade de João Feijão, sentia-me uma anã grudada ao pé do feijoeiro, embora soubesse que ele também tinha virado esse texto de pernas para o ar. Não me faltaram ocasiões de o fazer: era comum ele mostrar-nos poemas em estado de «manuscrevência», pejados de emendas e pequeninas notas, por vezes grafados sobre régua, daquela peculiar maneira sua e na sua caligrafia singular. Falei com ele, pela primeira vez na vida, a uma mesa do Piolho, no ano de 1974, entre a publicação do «Ainda não é o fim nem o princípio do Mundo, calma é apenas um pouco tarde» e do «Gigões e Anantes», embora já o conhecesse via leitura colectiva de «O país das pessoas de pernas para o ar» no recreio do liceu, em 73, e através da descoberta do seu primeiro e fulgurante livro de poesia. Como, do alto dos incautos 16 anos, eu andava a vender livrinhos de minha autoria feitos à mão, «trocámos galhardetes»: ele ofereceu-me um «Ainda não é o fim...» eu dei-lhe o meu modesto artefacto. O Manuel António Pina era de uma imensa generosidade no que tocava à oferta dos seus livros. Se é certo que comprei livros dele para dar como prenda ou para substituir volume desaparecidos das minhas estantes, não menos certo é que ele me (nos) oferecia livros seus cada vez que me (nos) via. É muitíssimo esquisito eu não possuir nenhum exemplar do texto intitulado «O Escuro» que traduzi só Deus sabe quando. Também não tenho em mãos nenhum rasto da tradução. Lá chegarei.

Lembro-me, como se fosse ontem, dos longos momentos que passámos a traduzir, a três e para francês, «Os Piratas». Pela noite fora, pela noite dentro, como adolescentes conspirando no quarto dos brinquedos onde já ninguém brinca mas permanece um cheiro entranhado a jogo infantil. O Manuel António chegava tarde a nossa casa e nós trabalhávamos na sala que dá para a rua (a altas horas ouve-se lá a pontuação pesada dos passos e murmúrios dos transeuntes noctívagos...), para fumarmos muito e falarmos à vontade sem acordar os três filhos ainda pequenos. O autor, ciente das particularidades expressivas do seu texto e sensível às especificidades do Francês, mostrava-se atentíssimo e exigente. Acontecia, por exemplo, já termos dado como traduzida tal ou tal página e a ela voltarmos, horas depois, porque ele ficara a matutar sobre um ou vários pormenores que não lhe agradavam. Sorrindo sempre como quem pede quase desculpa por ser tão firme em certas convicções suas. Convém sublinhar que a razão pela qual nos lançámos neste empreendimento foi a decepção, eivada de fúria, do Manuel António Pina perante uma tradução d'«Os Piratas» que lhe chegara de França, um texto redigido em francês rebuscado e ignorante do tom do autor e dos registos em português.

Em contrapartida, a tradução d'«O Escuro» é para mim um grande buraco negro, passo a expressão. Creio que o apagamento do processo se deve a alguma urgência ditada por prazos, mas não garanto. No entanto gostaria de recorrer a uns poucos e singelos exemplos colhidos nesse texto para tentar explicitar situações que, embora não levantem problemas de compreensão, colocam, a meu ver e também no entendimento do Manuel António Pina, espinhosas questões de tradução.
Vejamos, por exemplo, no segundo parágrafo, a dificuldade inerente a traduzir a palavra «mãe». Sabemos que o vocábulo «mãe» se traduz pelo termo «mère» em francês. Onde a porca torce o rabo é que, o valor, em português corrente contemporâneo – e é esse o registo deste texto poético –, da forma de tratamento «mãe» não pode ser traduzido para francês pelo simples «mère», sem o determinante possessivo «ma», porque somente em contextos familiares do tipo aristocracia serôdia ou altíssima burguesia empertigada encontraríamos essa forma de tratamento. Traduzir «mãe» por «mère» acarretaria uma mudança brutal de registo. Todavia, traduzir «mãe» por «ma mère» (a pretexto de manter o registo e fazendo valer que a inexistência de determinante possessivo em português se deve à certeza de que relação de pertença subentendida é dedutível dentro do contexto) levanta um muito concreto embaraço num texto em que a figura da mãe não é, ou, pelo menos, não é apenas, uma presença familiar, mas sim, e também, uma entidade arquetípica, o mesmo acontecendo com o «pai» que surge num parágrafo posterior. A palavra «mãe» tem cinco ocorrências no texto e a tradução de cada uma delas poderá desaguar, no francês, em grupos nominais ou substantivos distintos, nomeadamente no «maman», se o tradutor privilegiar a componente da ternura – coisa que eu não faria, não obstante o tratamento «maman» ser muito mais banal na língua hexagonal do que no luso idioma. Note-se que estes pequenos obstáculos são tanto mais relevantes quanto estamos perante um texto que encena o estilhaçar do sujeito poético, a experiência do desdobramento num vaivém entre o mundo e, digamos, o seu negativo, a sua sombra, as suas trevas. A resolução de uma contrariedade deste género implica uma escolha – fatal porque as línguas diferem irredutivelmente – que empobrece – ou, pelo menos altera – os efeitos de sentido e a geografia de relações que o texto encerra.
Repare-se agora na palavra «escuro». Palavra importante, já que aparece no título e, depois, sete significativas vezes no texto, a partir do segundo parágrafo. À luz, passo a expressão, da lógica já anteriormente enunciada, se procurarmos o equivalente de «o escuro» em língua francesa, no registo corrente, vamos forçosamente deparar-nos com «le noir». «As crianças têm medo do escuro» daria em francês «les enfants ont peur du noir». «Caminhar às escuras» daria «marcher dans le noir». Etc. Claro que o vocábulo «obscurité» também traduz «escuro», mas o registo é francamente menos familiar e, além disso, convoca outras conotações mais abstractas, que podem ir até à valência de «incompreensível». Mais uma vez, a tradução exige uma opção que não se toma sem hesitar um pouco. Até porque o texto, escrito numa linguagem assaz coloquial, não deixa de almejar obviamente elevados patamares de abstracção. Traduzir – como foi decisão nossa - «o escuro» por «le noir» confere ao texto uma coloração inequivocamente divergente – mesmo que a divergência não seja pecado – ao texto em francês.
Detenhamo-nos desta feita na proposição «ou como se também eu tivesse morrido» que, em tradução directa, daria «ou comme si, moi aussi, j'étais mort». É rigorosamente impossível, sem nos metermos por atalhos traiçoeiros, verter para francês, o valor de inscrição no tempo (ou seja: da duração) e a participação do sujeito na acção de morrer que a formulação em português comporta. Em língua francesa, não se pode escrever «si j'avais mouru» - só as crianças, na sua formidável liberdade e intuição das possibilidades, o fariam sem pudor. Sendo a conjugação verbal – e há que realçar que a dos verbos portugueses e a dos verbos franceses nem sequer são, entre si, das mais díspares... – um sistema de mise en scène (encenação) das acções, neste campo os obstáculos são incontornáveis. Porém, um tradutor-lutador não haveria de perder a oportunidade de, algures no texto, onde se apresente brecha disponível e caso tal felicidade se lhe ofereça, contrabalançar esta depauperação que – mais uma vez situando-nos relativamente à maneira como ESTE específico texto exprime o «trabalho de morte» – lhe parecerá seguramente deplorável. Como explica o meu companheiro Saguenail, Serge Abramovici de sua identidade civil e académica, num texto intitulado «Traição literária», a actividade do tradutor pressupõe a aceitação da necessidade de certas perdas, em determinadas dimensões, do texto, mas também o esforço de as compensar, noutras dimensões.

Continuar a escavar os tesouros de complexidade deste texto sob o prisma da sua passagem para a língua francesa seria provavelmente fastidioso. E talvez inútil já que, na tradução como noutros domínios, o medo não evita o perigo, apenas permite medi-lo. Sirva-nos de consolação, a cada um de nós traduttore traditore, esse saber difuso, confuso e obscuro que nos ilumina na percepção de que o corpo do poema jamais caberá no caixão do poema. Todavia, não menos na certeza baudelairiana de que «... toujours le tombeau comprendra le poète».

Regina Guimarães
a 19 de Outubro de 2012


Arnaldo
Saraiva

Eduardo
Lourenço

Da Rocha

Germano
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Guilherme
Castro

Manuel
Pina (Pai)

Manuel
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João
Pina (Irmão)

José
Carlos
Vasconcelos

Regina
Guimarães

Rosa
Maria
Martelo

Agostinho
Santos