MARCA INCONFUNDÍVEL
Sempre com a "mesma inumerável voz" de grande poeta viveu e morreu o Manuel António Pina. Tudo que ele fazia tinha a sua marca inconfundível. A marca de uma imensa inventiva e de um enorme talento, da sagacidade e da ironia, da inteligência e do humor, de um olhar diferente, humaníssimo mesmo quando aceradamente crítico. Tudo isso era parte essencial das mais fundas raízes e ferramentas do escritor, com o dom de um texto raro, em verso e prosa, nas várias disciplinas em que se distinguiu, em que e escreveu e nos escreveu: poesia, obras para os mais novos (e de que os mais velhos não gostavam menos), teatro, crónicas. Sem esquecer o jornalista, em que também estava presente o escritor, como no escritor, em particular no poeta, estava o jornalista. E todos, tudo, no cronista, o mais admirável e completo cronista português na múltipla temática e nos vários formatos das suas crónicas. Nas quais coexistiam o tal olhar diferente e inteligente, perspicaz, a alta qualidade literária, a dimensão humana e cívica do autor. Só a simultaneidade e globalidade destas várias condições e qualidades, a sua simbiose ou mistura, explica a excelência do cronista – e do poeta.
E do poeta, sublinho, ao qual de forma tão justa como surpreendente foi atribuído o Prémio Camões. Surpreendente porque ao maior galardão da língua portuguesa em geral se associava o nome de alguém que pela sua idade, pela consagração universitária, crítica e/ou popular da sua obra se transformava numa espécie de ‘candidato natural’ ao prémio, as mais das vezes com a correspondente postura ou pose, na literatura e na vida. Ora o Pina representava o contrário disto, (a)parecendo mesmo, de certa forma, como marginal em relação à chamada ‘vida literária’ e seus aspetos sociais, ou mesmo, digamos, ‘tribais’. E não faltou quem estranhasse o relevo que, ainda antes desse prémio, no JL sempre demos à sua obra, inclusive dedicando-lhe duas ou três capas, uma delas a propósito da edição de uma antologia de crónicas suas.
Mas falando do Manuel António Pina não posso esquecer o homem, o cidadão e o querido amigo. Quando um amigo morre, é o amigo que antes de tudo choramos e é dele que sobretudo nos apetece falar. Aliás o Pina, homem, cidadão, amigo, correspondia por inteiro ao escritor, não era daqueles - e não são poucos!... - de quem se diz que era ou é melhor não os conhecer: pelo caráter, pela vaidade ou futilidade, pelo narcisismo ou mundanismo; ou porque pura e simplesmente são uns... chatos! O Pina, pelo contrário, além de tudo o mais, era extremamente simples, simpático, despretencioso, mesmo quando, tão culto como discreto, citava poetas ou filósofos. E era um excelente conversador, sempre com histórias para contar e contando-as com cor, sabor, picante.
Mais, era até muito divertido, fosse quando falava da sua paixão pelos gatos e dos seus gatos em concreto, fosse até quando falava de doenças em geral e das suas, reais ou imaginadas, em particular. Com seu sorriso peculiar no rosto, pessoano mas redondo, e nos olhos, miúdos, minuciosos, ele brincava dizendo que tinha todas as doenças do mundo, só não era hipocondríaco. Felizmente, não teve todas que imaginou; infelizmente teve muitas, e graves, até às dramáticas últimas semanas de vida.
Ninguém esquece, ninguém pode esquecer, muito menos os seus amigos, o Manuel António Pina.
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