CHEGAR (UM POUCO) TARDE
Manuel António Pina, o poeta e a poesia*
1.
Tudo quanto Manuel António Pina tinha de vivacidade, inteligência, sensibilidade e bondade entrava na sua maneira de conversar. Encadeando uma história na outra, com muitos passes de ironia e humor, podia começar por uma frase acabada de ouvir a um funcionário da repartição de finanças, descrever a seguir o olhar de um gato lá de casa, passar a um episódio dos tempos de faculdade (que até lhe lembrava um trecho da Ilíada) e acabar numa ideia que o surpreendera no livro que andava a ler. Foi assim de todas as vezes que falei com Manuel António Pina, e encantava-me sempre a maneira como ele ia juntando uma história à outra por razões ao mesmo tempo inesperadas e perfeitamente lógicas (enquanto uns olhos muito vivos nos observavam, um pouco como quem não quer a coisa). Mas talvez me encantasse ainda mais um gesto que também se repetia. É que, ao contrário da maior parte dos grandes contadores de histórias, Pina nunca se esquecia do interlocutor. E de repente parava: – “Não acha que é assim? Que lhe parece isto?” Essas pausas, pelas quais as histórias se iam interrompendo e voltavam a ser conversas, faziam-me pensar na sua poesia, num movimento muito característico que ela tem.
As pausas com que Pina suspendia as suas histórias pareciam formar um vazio no correr do tempo, um silêncio expectante através do qual a vida do interlocutor e o ignorado mundo que lhe diria respeito poderiam entrar e tornar-se presentes. Na poesia, também há este tipo de intervalos, que são movidos por uma empatia descentrada e aspiram à emergência do que se desconhece, do inesperado, do não-eu. Sem esquecer que, na escrita de Pina, quem diz eu é já de algum modo, e reconhecidamente, não-eu, dialogismo, abertura à diferença e à irredutibilidade.
Se é verdade que, como resumiu Richard Rorty, o foco de interesse da filosofia começou por estar em coisas, passando depois para as ideias, e destas para as palavras, o pensamento meta-discursivo da poesia de Manuel António Pina inscreve-se, sem sombra de dúvida, neste último estádio (que entretanto alguns consideram ultrapassado pelo predomínio da imagem visual). O uso que o poeta fez das palavras isto e isso, recusando-se a ligá-las gramaticalmente à preposição de, especialmente nos primeiros livros, traduz uma maneira de pensar a linguagem e de equacionar um hiato entre as palavras e o que elas deveriam designar ou tornar presente: o que Pina certamente chamaria vida. Isto deveria trazer a vida para a poesia, não uma ideia abstracta de mundo mas uma narrativa cheia de pessoas, de vozes que se confundem entre si numa muita complexa estratificação do tempo misturando o real e o imaginário. Um exemplo, extraído de Aquele Que Quer Morrer (1978): “Isto está cheio de gente / falando ao mesmo tempo / e alguma coisa está fora de isto / e tudo é sabido em qualquer lugar” (Pina 2001: 71). Por consequência, isto é também o nome dado a uma subjectivação particularmente instável e descentrada: “Também eu (isto) não tenho história / senão a de uma ausência / entre indiferença e indiferença” (idem: 253).
O deíctico
isto serve, em princípio, para indicar alguma coisa que está perto do sujeito de enunciação. Por conseguinte, o facto de Manuel António Pina não querer ligar esta palavra à preposição de (que não tem nenhuma capacidade de se confundir com o que não pertence ao domínio do verbal) sugere descrença na possibilidade de se sair da linguagem. Na poesia de Pina não é possível passar de de isto a disto porque o problema que a guia reside precisamente em, ontologicamente falando, ela supor a inexistência dessa passagem. Ao contrário da preposição de, o deíctico isto pode, ainda que aparentemente, circunscrever o que designa, como se a palavra transportasse com ela um vazio destinado a ser preenchido. Mas essa é a ilusão que a poesia de Pina recusa: como acreditar nessa junção, se ela é apenas um efeito da linguagem e haver linguagem é propriamente a distância que, paradoxalmente, a poesia pretenderia superar? A infância, tantas vezes lembrada, poderia representar um tempo em que isto fora presente como não-dito; porém a infância que se conhece enquanto tal é já memória, vem articulada em palavras, e, portanto, é um sintoma da impossibilidade de resolver a distância.
Se tivesse ido apenas por aqui, a poesia de Pina poderia ter ficado fechada numa espécie de nominalismo solipsista; mas também é aqui que ela adquire uma dimensão dramática, e sobretudo dialógica, muito forte. E o diálogo é feito do desejo de preencher a distância, acredita nessa possibilidade. Cheios de vozes descentradas, isto é, de vida, os poemas também inquirem (e afirmam) a existência do diálogo como dimensão da vida, exprimindo até a nostalgia de um tempo onde ele pudesse ter existido absolutamente. É certo que há uma dúvida quanto a essa possibilidade não ser mais do que um desejo aporético, uma invenção dessa mesma linguagem que mais não faz do que produzir vazio, ausência, distância: na poesia de Manuel António Pina é sempre tarde para colmatar os hiatos reflexivos que separam uma vida de a vida. E todavia, também nunca é suficientemente tarde para desistir de fazer perguntas, ou seja, para relançar o diálogo. De modo implícito ou explícito, a poesia de Manuel António Pina está cheia de interrogações, muitas delas tão desarmantes como as que fazem as crianças: “Sem que palavras alguma coisa é real?”, pergunta-se em “[Tudo à minha volta]” (2001: 136).
Estas perguntas, que têm uma amplitude filosófica ou mesmo metafísica, na medida em que procuram suscitar algo que permita fazer sentido, totalidade, ou coincidência (e uso três palavras que fazem parte do vocabulário do poeta), confrontam-se muitas vezes com o silêncio, ou seja, com a impossibilidade de gerarem um diálogo efectivo. Às vezes, é como se falassem em cima do vazio. Em “O Espelho”, de Nenhum Sítio (1984), podemos ler: “As palavras não chegam / para levar-me onde, fora / da infância está alguma coisa: / isto que quer falar // e vê e é visto” (Pina 2001: 113). Mas, se este tipo de constatação se repete, os poemas nunca desistem de ser um espaço de acolhimento, de interlocução, e, por isso mesmo, estão cheios de vozes, que estão cheias de sentimentos. Para mim, é aí que eles se parecem com Manuel António Pina: com aquela maneira que ele tinha de interromper as histórias para nos dar passagem na conversa, quase como quem abre a porta de casa e nos convida a entrar.
2.
Manuel António Pina não era muito pontual. Os amigos recordam com indisfarçada ternura os atrasos do poeta e as justificações que ele dava quando se fazia esperar: “telefonava a dizer ‘já vou a caminho, já vou a caminho’, e ia tomar banho, passar por não sei onde, e ainda encontrava alguém, e aparecia duas horas (…) depois” (cf. Queirós 2012: 24). Pina chegava tarde – temos memória disso, e também das histórias improváveis com que se redimia de ter-se feito esperar.
O título destas minhas breves reflexões não deixa de aludir a esta memória; mas o que verdadeiramente pretendo enfatizar é que, como disse atrás, também a poesia de Manuel António Pina se apresentou, desde sempre, como uma escrita que chega tarde.
Se o poeta acabava por chegar depois da hora marcada, a sua poesia parece ter-se visto na mesma situação. Sobretudo no início: “Já não é possível dizer mais nada / mas também não é possível ficar calado” (Pina 2001: 14), constata um dos poemas do primeiro livro. Na verdade, a poesia de Pina tinha vindo para um encontro com a tradição moderna, mas, nos anos 70, quando o poeta começa a publicar, já era “um pouco tarde” para isso. Não excessivamente tarde, porque a tradição moderna estava (ainda está) muito viva; apenas um pouco tarde, como Manuel António Pina intuiu quando, em 1974, deu ao primeiro livro de poemas aquele surpreendente título-frase de recorte neo-barroco que tão bem conhecemos:
Não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde.
Num registo que envolve alguma melancolia, mas que nunca se deixa tingir de tragédia (até porque era tarde desde logo para a radicalidade da tragédia, que assenta numa metanarrativa forte), Pina diz-nos com este título que vinha ao encontro da hora modernista que fora a de Pound, Eliot, Pessoa, Apollinaire (autores que tantas vezes cita, especialmente nos livros iniciais), mas descobrira que ela pertencia a um passado irrepetível, canónico, de algum modo fechado e não prorrogável, se bem que depois desse passado ainda não houvesse propriamente outra coisa, substancialmente diferente. Permaneciam afinidades, é certo, mas no seio de um desfasamento incontornável, que Pina percebeu à partida. No início dos anos 90, já retrospectivamente, Marc Augé resumiu de forma lapidar esse desfasamento pós-modernista quando disse que a sobremodernidade consistia na transformação da experiência da elite artística moderna num destino comum, ou seja, na transformação da crise do sujeito e da representação, bem como da dúvida epistemológica, em maneira de viver entre múltiplas distâncias, num mundo quotidiano e habitual marcado pela perda, mas sem drama. Manuel António Pina intuiu isto mesmo muitíssimo cedo: Clóvis da Silva e Flávio dos Prazeres, aliás Plágio dos Fazeres, não nos dizem outra coisa (Pina 2001: 32). A quem chega tarde para ser moderno (coisa que fatalmente aconteceria a um leitor de Borges, como Pina era), mas não tão tarde que viver ou escrever “literatura” se tenha tornado uma tarefa impossível, resta escrever a partir do “emperro” (um lugar verbal próximo do “enterro”, mas que ainda funciona, embora tendo perdido velocidade), a partir da citação, da memória de outros textos... Na década de 70 podia-se continuar a escrever, mas sem ingenuidade, digamos assim. Para usar um termo de Pina numa entrevista concedida a Luís Miguel Queirós, sem “primeiridão” (2011b). Escrever depois, em suma. “Já fiz tudo, já aqui estive, já li tudo!”, grita o “último dos homens” ou “aquele que quer morrer” (
idem: 61); “Já li tudo, já fiz tudo (quem?)” (
idem: 62).
E todavia, “Aquele que quer morrer” também “é aquele que quer conservar a vida,” (idem: 68), “aquele que quer saber” (idem: 71); e a obra de Manuel António Pina insiste num profundo desejo de ingenuidade, daquela ingenuidade própria das coisas primeiras e inteiras, puramente novas, livres da sombra de outras coisas. Pina chamou infância a esse desejo de ingenuidade. E falou muito dela. E também com ela; e mesmo como ela – imitando-lhe o perguntar.
Ter sido capaz de olhar de frente o “emperro”, a condição tardia da sua escrita, ter-lhe resistido com ironia e humor (ou com melancolia, às vezes), foi provavelmente o gesto mais determinante na escrita de Manuel António Pina. O poeta partilhou com outros da sua geração esta consciência tardia. Com António Franco Alexandre, por exemplo, com quem tem em comum um uso da linguagem tão desconfiado e medido quanto fascinado e experimentalista. Com Joaquim Manuel Magalhães, que equacionou a mesma consciência tardia de uma outra forma, acentuando a perda de grandes razões e a massificação (1989: 201).
E havia, claro, a questão Pessoa, que Pina também não quis dramatizar. Ou melhor, dramatizou, mas tão-só assimilando o modo dramático de um sujeito-efeito-de-escrita a quem deu a primazia de procurar o outro eu/ele, perdido do lado de lá da literatura – essa “arte / escura de ladrões que roubam a ladrões” (Pina 2011: 72) –, perdido na linguagem. Na poesia de Manuel António Pina
eu é resolutamente uma categoria gramatical, um pronome vazio, um efeito do discurso.
Eu fala a partir do discurso e como discurso (apenas) sem indicar ninguém por trás, às vezes nem sequer uma figuração autoral, e nessa medida torna-se facilmente numa voz de ninguém à procura do seu autor, processo que radicaliza absolutamente a des-subjectivação modernista, porquanto é propriamente um eu que se sabe efeito da escrita que toma a palavra a partir da palavra. Por isso, na poesia de Pina o eu é comutável com isto (que fala):
As palavras não chegam
para levar-me onde, fora
da infância, está alguma coisa:
isto que quer falar
e vê e é visto.
Não estou aqui, sonho
(eu, também um sonho)
fora de mim comigo.
(2001: 113)
Dito de outro modo:
É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
(2001: 137)
Para Manuel António Pina, como para os grandes modernistas que tanto admirava, a poesia é pensamento, um modo auto-reflexivo de a linguagem ver e pensar contra as evidências, inclusive as da literatura. É pensamento (é o tempo pensando-se), como o fora para Pessoa, e às vezes com idênticos custos de diferimento – do sujeito, das coisas, do mundo, perdidos todos eles na distância e nos jogos de linguagem, no jogo das diferenças entre as quais se geram os sentidos. “Kindergarten”, um poema de
O Caminho de Casa (1989), poderá exemplificar o que pretendo dizer:
As filhas brincam fora de o quê,
que infinitamente se interroga?
O fora de elas é dentro
de que exterior centro?
Quem está lá aqui
assistindo a isto e a mim,
e às filhas brincando e ao jardim?
Que coisa essencial em qualquer sítio perdi?
Também eu ou alguém brincou há muito tempo
em outro jardim, brincando.
Sem que palavras lá estando?
Fora de que memória não me lembrando?
(Pina 2001: 150)
O diferimento não deve, no entanto, distrair-nos do essencial: a poesia de Manuel António Pina é atravessada por um desejo nostálgico de religação e epifania que muitas vezes, como neste poema, é remetido para um antes (ou um exterior) que adquire uma dimensão real e concreta (a infância das filhas, neste caso), mas também abstracta e metafísica (“eu ou alguém”, “sem que palavras lá estando?”). Uma das questões que fazem a singularidade deste poeta é precisamente a ambivalência da sua noção de “infância”, que é simultaneamente concreta e abstracta, quotidiana e mítica. Porque a infância é, aqui, o que prescinde da linguagem (
infans: sem fala, ou que não fala) e que assim coincide com o estar; mas também é a memória, a pureza, a bondade, a simplicidade. E, acima de tudo, seria a coincidência da mente consigo mesma enquanto mundo, matéria (que pensasse sem nisso gerar distância).
Como não chegaria tarde a poesia de Manuel António Pina, se era a partir da infância, e ainda antes de haver linguagem, que ela gostaria de ter falado? Como não chegaria tarde se, paradoxalmente, ela quereria ter voltado a antes-de-ter-sido para ser por inteiro? De certa maneira, e especialmente nos primeiros livros, para Manuel António Pina, o caminho da escrita era o de prescindir das palavras. No final do poema “Estarei ainda muito perto da luz?”, de
Nenhum Sítio (1984), podemos ler:
Quando eu me calar
sabei que estarei diante de uma coisa imensa.
E que esta é a minha voz,
o que no fundo de isto se escuta.
(2001: 105)
Mas dizê-lo é uma inevitável contradição de quem chega tarde: de quem chega tarde à literatura, como reconhecidamente aconteceu aos que começaram a escrever na década de 70, ou seja, depois da consolidação de um cânone de clássicos modernos; mas também à infância, como nos acontece a todos, já que só quando podemos charmar-lhe assim (infância) a conhecemos, e portanto nunca a conheceremos antes de a termos perdido. Numa entrevista concedida ao
Jornal i, em 2012, Manuel António Pina resumia esta contradição:
Nós quando somos pequenos queremos ser grandes rapidamente. Mas na infância os poetas invejam a capacidade de ver pela primeira vez. A poesia é também uma forma de olhar de novo. A infância é mítica porque é a capacidade de olhar profundamente pela primeira vez. Para mim, é a melancolia de um momento mítico – mítico até porque parece que já nascemos com a estrutura para a linguagem no cérebro – da relação com as coisas sem intermediação da linguagem. A linguagem afasta-nos do mundo. Nós já nascemos como seres condenados à linguagem, como provam os trabalhos do Chomsky, mas tenho um poema num livro, “Lugares da infância”, em que se fala daquela possibilidade de ter uma relação com o mundo sem essa intermediação. No meu caso a ideia de infância é uma busca desse momento inicial sem nenhuma palavra e nenhuma lembrança em que nós somos também mundo. (Pina 2012: s. p.)
De facto, recordando os lugares da infância (mas há-de haver aqui também alguma ironia metalinguística porque o que está é causa é igualmente a infância como lugar, como
topos da poesia), Pina escreve: “O quarto eu não o via / porque era ele os meus olhos; /e eu não o sabia / e essa era a sabedoria” (2001: 160). Por isso, lembrando Nietzsche, o poeta falará de uma “segunda e mais perigosa inocência”, de “uma inocência que se sabe inocente, ou então apenas uma espécie de inocência” (Pina 2011b, s.p.). E eu acrescentaria que essa é uma outra forma de “chegar tarde” e de fazer do atraso uma autêntica forma de vida, ou melhor, de escrita (as duas coisas não se distinguem muito bem, neste caso).
Creio que Pina sempre escreveu para voltar a casa, ou para voltar ao princípio, ou para voltar à origem, a um lugar mítico. Para coincidir. Na verdade, para coincidir com as palavras (chama-se a isso poesia), ou com o silêncio que algumas delas prometem. Sob esse ponto de vista, um dos poemas que prefiro é “Ludwig W. em 1951”, de Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança. Mas o que esse texto diz está mais acessível, sob a forma de exortação, noutro poema do mesmo livro, intitulado “A um jovem poeta”, que passo a citar:
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
Como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
(2001: 274)
O último livro de poemas de Manuel António Pina intitulou-se
Como se Desenha Uma Casa (2011a) e está certo ter acontecido assim. Porque essa casa, o poeta desenhou-a revisitando obsessivamente a convicção de que o poema já não tinha a força de configurar-se como habitação. Foi do confronto com uma tradição sem inocência nenhuma que o poeta fez a sua inocência segunda, ou seja, o poema “casinfância” afinal possível (termo de Herberto Helder, que estaria, eu sei, nos antípodas, mas são precisamente esses antípodas que aqui lembro), numa linguagem sempre conquistada às avessas e como quem não quer a coisa, até chegar à casa de partida, supostamente perdida, a uma possibilidade mítica: um poema para habitar.
Há vários pontos comuns entre Manuel António Pina e António Franco Alexandre, dois poetas cujas obras reflectem intensamente sobre a linguagem e a condição da poesia no último quartel do século XX: ambos recorrem com frequência à sub-asserção e escolhem um tom menor para falar do impoder da poesia; e ambos conseguem, através desse tom menor, não prescindir dos amplos poderes que acabam por evidenciar na poesia que escrevem. É um jogo de quem chega tarde, é claro. Mas também de quem se tornou sobrevivente, resistente... Contra todas as expectativas, o tom menor, dubitativo, inquisitivo, nunca assertivo de Manuel António Pina (e não é por acaso que Pina admirava explicitamente a poesia de Franco Alexandre) é o dispositivo que permite que a poesia acabe por recuperar o poder pela estratégia de o negar ou dele prescindir:
(...)
Caem co’a calma as palavras
que sustentaram o mundo,
e nem por isso o mundo parece
menos terreno ou impermanece.
(...)
(Pina 2001: 282)
Assim constatou o poeta em
Atropelamento e Fuga, não por acaso evocando Sá de Miranda, e com ele os alvores e a euforia epistemológica de quinhentos. Poderíamos acrescentar que a poesia também não, também não impermanece. Afinal, não continuamos a ler os poemas que Manuel António Pina escreveu? E apetece sempre voltar ao desejo formulado nos versos finais de “Ludwig W. em 1951”:
(...)
Teremos então, enfim, uma casa onde morar
E uma cama onde dormir
e um sono onde coincidiremos
com a nossa vida,
um sono coerente e silencioso,
uma palavra só, sem voz, inarticulável,
anterior e exterior,
como um limite tendendo para destino nenhum
e para palavra nenhuma.”
(Pina 2001: 282)